Todas as cartas de amor são ridículas (ou não)

Um dos meus livros favoritos é “O amor nos tempos do cólera”, do escritor colombiano Gabriel García Márquez. É indiscutível que Gabo é genial, mas tem um elemento que faz com que este seja um dos meus livros preferidos: as cartas de amor.

O romance de Florentino Ariza e Fermina Daza existe apenas por meio de cartas. As dele, de amor e as dela, nem tanto. Já com o namoro desfeito, Florentino Ariza utiliza o talento que tem para demonstrar sentimentos (um tanto quanto exagerados) e passa a escrever cartas de amor para outras pessoas. “(…) sobrava-lhe tanto amor por dentro que não sabia o que fazer com ele, e dava-o de presente aos enamorados implumes escrevendo para eles cartas de amor gratuitas no Portal dos Escrivães” (p. 214).

Quando eu era criança, fazia algo parecido. Com menos talento para a escrita, mas com talento para o comércio, passei a vender papel de carta no colégio (quem nasceu nos anos 2000 nem deve ter ideia do que é isso). Além das cartas, eu vendia o serviço de escrever cartas de amor. O conteúdo geralmente era o trecho de alguma música sertaneja que eu retirava de um encarte de CD do Leandro & Leonardo. Eu até borrifava (provavelmente de maneira exagerada) um perfume nas cartas (e borrava toda a escrita).

Muito tempo passou e ainda me comovo facilmente quando o assunto é carta de amor. Concordo com Fernando Pessoa, “afinal, só criaturas que nunca escreveram uma carta de amor é que são ridículas”.

Hoje, por coincidência/ destino/ sintonia/ acaso, encontrei a notícia de uma carta de amor escrita por um veterano da II Guerra e que foi encontrada após 70 anos. A história é assim: Bill Moore de Aurora, então com 20 anos, era soldado, lutava na II Guerra e era apaixonado por Bernadean. Longe dela, a única maneira de continuarem o namoro era através de cartas. Com o fim da guerra, eles casaram, mas as cartas se perderam.

Porém, uma moradora do Colorado encontrou a carta ao buscar por discos de vinis em um brechó. Ela conseguiu encontrar Bill e entregou o texto. Mais bonita do que a história, é Bill relendo a carta e se emocionando. A mulher dele, Bernadean, faleceu em 2010.

Você é tão adorável, querida, que eu muitas vezes me pergunto como é possível que você seja minha. Sou realmente o cara mais sortudo do mundo, você sabe. E você é a razão. Até o seu nome soa adorável para mim”

Outra carta que fez sucesso este ano é a de Johnny Cash para June Carter. Ela foi eleita a mais bela carta de amor por uma pesquisa realizada por uma empresa de seguros britânicos. O texto foi escrito no dia do aniversário de 65 anos de June.

“Ficamos velhos e nos acostumamos um com o outro. Pensamos coisas parecidas. Lemos a mente um do outro. Sabemos o que o outro quer sem perguntar. Às vezes, nos irritamos um pouco. Às vezes, não nos damos importância. Mas, de vez em quando, como hoje, eu medito e percebo o quão sortudo sou por compartilhar minha vida com a mulher mais incrível que conheci. Você ainda me fascina e me inspira. Você me influencia para melhor. Você é o objeto do meu desejo e a razão número um para minha existência. Te amo muito. Feliz aniversário, princesa.”

Essa mesma pesquisa revelou que três entre quatro homens tinham escrito uma carta de amor no ano passado e que 38% das mulheres entrevistadas  admitiram nunca ter escrito uma na vida. Além disso, 46% das mulheres disseram considerar a tradição ultrapassada.

E você, qual foi a última vez em que escreveu uma carta de amor?

(Eu escrevi uma na semana passada. Não entreguei. Nem sei se vou entregar)

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Um pensamento sobre “Todas as cartas de amor são ridículas (ou não)

  1. Eu escrevia muita carta antigamente, hoje nem lembro a última que escrevi. Obrigada por partilhar essas histórias Thaís.
    Enche nossos corações de luz.

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